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Direito Previdenciário · Saúde mental

Vício em bets virou caso de INSS

Por Leandro Ceretti, advogado especialista em Direito Previdenciário · Publicado em 13/06/2026 · Leitura: 8 min

As solicitações de benefício por dependência em apostas cresceram mais de 2.300% em 2025. Imagine perder a casa, as economias de uma vida inteira e se endividar com agiotas, tudo por causa de um aplicativo no celular. Não é exagero. Está acontecendo com milhares de brasileiros agora. E o pior: a maioria não sabe que tem direito a proteção.

Ilustração: o brilho do celular na escuridão e uma linha em queda Representação editorial do vício em apostas, com a luz de um celular iluminando uma linha financeira em queda. LUDOPATIA · CID-10 F63.0
Ludopatia é o termo médico para o vício em jogos e apostas. Doença reconhecida pela Organização Mundial da Saúde.

O que é a ludopatia, e por que isso importa para você

Ludopatia é o termo médico para o vício em jogos e apostas. Não é frescura. Não é falta de força de vontade. É uma doença reconhecida pela Organização Mundial da Saúde, com código oficial: CID-10 F63.0.

Quem tem ludopatia não consegue parar de apostar, mesmo depois de já ter perdido tudo. O cérebro da pessoa viciada funciona de forma diferente. Ela sente uma compulsão que não controla. Os sinais mais comuns são:

Os números que o Brasil ainda não quer encarar

Só em 2024, 23 milhões de brasileiros enviaram mais de R$ 240 bilhões para plataformas de apostas. Quase metade desse grupo está endividada. E 1 em cada 10 já vendeu algum bem ou pediu empréstimo para continuar jogando. O número de atendimentos por vício em apostas cresceu mais de 300% nos últimos cinco anos, segundo a Associação Brasileira de Psiquiatria.

Os números por trás do vício em bets no Brasil Quatro dados: alta de 2.300% nas concessões por ludopatia, R$ 240 bilhões enviados a plataformas em 2024, 23 milhões de apostadores e o código CID F63.0. Os números por trás do vício em bets +2.300% alta nas concessões de auxílio por ludopatia (jun/2023 a abr/2025) R$ 240 bi enviados a plataformas de apostas só em 2024 23 milhões de brasileiros apostaram em 2024, quase metade endividada CID F63.0 jogo patológico: doença reconhecida pela Organização Mundial da Saúde
Fontes citadas no texto: Associação Brasileira de Psiquiatria e dados de concessão do INSS.

Esse crescimento tem um culpado claro: a explosão das bets no Brasil, com publicidade em todo lado, patrocinando clubes de futebol, com influenciadores prometendo que "dá para ganhar dinheiro fácil". Um estudo calculou que os danos causados pelas bets ao Brasil chegam a R$ 38,8 bilhões por ano. Esse valor considera suicídios, desemprego, gastos com saúde e afastamentos do trabalho.

O lado que ninguém fala: o vício e o pensamento de morrer

É preciso falar sobre isso com clareza. Entre 50% e 80% dos jogadores compulsivos já pensaram em tirar a própria vida. Pessoas com vício em jogo têm probabilidade muito maior de ter pensamentos suicidas do que a população em geral. Um estudo publicado em 2025 na revista médica Lancet, uma das mais respeitadas do mundo, concluiu que o suicídio foi a principal causa de morte entre pessoas com transtorno de jogo.

Por que isso acontece? A pessoa acumula dívidas em segredo por meses ou anos. Quando o colapso chega, tudo desaba junto: a dívida, o patrimônio perdido, a família destruída, a vergonha. É esse peso, e não um momento isolado, que leva pessoas ao limite. Falar sobre isso é necessário. Omitir é fingir que o problema não existe.

Se você ou alguém que você conhece está em sofrimento intenso, o CVV atende 24 horas, de forma gratuita e sigilosa, pelo telefone 188 ou pelo site cvv.org.br.

O INSS e a ludopatia: o que mudou e o que ainda falha

Os dados do INSS mostram uma virada. Entre 2015 e 2022, o número de auxílios-doença concedidos por jogo patológico não passava de 11 por ano em todo o Brasil. Com a explosão das bets, esse número começou a crescer em 2023 e, em 2024, passou a registrar dezenas de concessões por mês. Entre junho de 2023 e abril de 2025, a concessão de auxílios-doença por ludopatia cresceu mais de 2.300%.

Mas tem um problema grave do outro lado: a maioria dos trabalhadores afetados nunca foi atrás do benefício, e muitos que tentaram tiveram o pedido negado. O INSS nega porque os laudos médicos são fracos, porque os peritos subestimam doenças mentais, e porque a pessoa não sabe como construir o pedido certo.

Quem tem direito a benefício por causa das bets

Se a ludopatia impede a pessoa de trabalhar, ela pode ter direito a benefício pelo INSS. Veja os casos:

BenefícioQuando se aplica
Auxílio por Incapacidade (antigo auxílio-doença)Para quem contribui para o INSS e não consegue mais trabalhar por causa do vício.
Aposentadoria por Incapacidade PermanentePara casos mais graves, quando a doença é crônica e sem perspectiva de melhora, e a pessoa não terá mais condição de trabalhar.
BPC/LOASPara quem não tem contribuições no INSS ou as perdeu, e cuja situação chegou a um ponto grave: a ludopatia virou uma deficiência que impede até a vida independente.

O ponto que muda tudo: o INSS não concede benefício por causa do diagnóstico. Concede pela incapacidade. Um laudo que diz apenas "paciente com CID F63.0" quase sempre resulta em negativa. O que o INSS precisa entender é como essa doença destruiu a capacidade da pessoa de trabalhar e viver. Isso precisa estar documentado com detalhes.

Uma pergunta que precisa ser feita

As bets chegaram ao Brasil com patrocinadores em todos os times de futebol da Série A. Com influenciadores prometendo renda fácil. Com publicidade em horário nobre. E com regulação insuficiente para proteger quem mais precisava de proteção.

A CPI das Bets investigou irregularidades no setor durante oito meses, recomendou o indiciamento de 16 pessoas entre empresários e donos de plataformas, e teve o relatório arquivado. Afinal, quem está sendo protegido nessa história?

As famílias que perdem casas, as pessoas que chegam ao CAPS com o olhar vazio, os trabalhadores que ficam sem renda e não sabem que têm direito a um benefício, esses não têm lobby no Congresso.

O Direito Previdenciário não resolve o problema das bets no Brasil. Mas pode ser a diferença entre uma família ter o que comer no fim do mês ou não. E esse direito existe. O que falta, na maioria das vezes, é alguém que explique.

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Pedidos de benefício por ludopatia são negados quando o laudo não mostra a incapacidade. Se você ou alguém da sua família vive isso, uma análise do caso pode indicar o caminho certo. Atendimento por WhatsApp e videochamada, em todo o Brasil.

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Perguntas frequentes

Vício em bets dá direito a benefício do INSS?

Sim, se a ludopatia (CID F63.0) impedir a pessoa de trabalhar. O INSS concede o benefício pela incapacidade para o trabalho, não pelo diagnóstico em si. Por isso o laudo precisa demonstrar a incapacidade, e não apenas citar o código da doença.

O que é ludopatia?

É o termo médico para o vício em jogos e apostas. É uma doença reconhecida pela Organização Mundial da Saúde, com o código CID-10 F63.0 (jogo patológico).

Quais benefícios a pessoa com vício em apostas pode receber?

A depender do caso e das contribuições, o auxílio por incapacidade temporária, a aposentadoria por incapacidade permanente, ou o BPC/LOAS quando a pessoa não tem contribuições e a situação é grave.

Por que o INSS nega pedidos por ludopatia?

Porque muitos laudos são fracos e só citam o CID, sem descrever a incapacidade, e porque doenças mentais costumam ser subestimadas na perícia. O laudo precisa mostrar como o vício destruiu a capacidade de trabalhar e viver.

Apoio em momentos de crise. Se você ou alguém que você conhece está em sofrimento intenso ou com pensamentos de morte, procure ajuda. O CVV (Centro de Valorização da Vida) atende 24 horas, de forma gratuita e sigilosa, pelo telefone 188 ou pelo site cvv.org.br.

Leandro Ceretti
Leandro Ceretti
Advogado especialista em Direito Previdenciário · OAB/SP

Sócio-diretor do Ceretti Advogados Associados e autor do livro "BPC/LOAS: O que o INSS não te conta" (2025). Atua há mais de 10 anos em benefícios por incapacidade e acompanhou centenas de perícias ao lado dos segurados. Sobre o autor.